Leviatã

Era mais um dia ensolarado na capital, mas na casa de Alma faz frio. Ela acorda todos os dias com a playlist Classical Sad Music*1, que preparou em um aplicativo moderno. Toma banho no escuro, coloca ração para sua gata negra Astarte, depois passa o café preto para aguentar o fardo da normalidade. Quase tudo pronto para mais um dia de trabalho, em um hotel de cinco estrelas.
Alma trabalha no bar do grande hotel, escuta muita gente importante e muita idiotice acerca delas. Certa vez, em um dia monótono, Alma conheceu Ester, 1.75 de altura, cabelos escuros, muito bem vestida. Ester aparentava ser uma mulher misteriosa com seu olhar profundo. Por um momento, Alma quis adentrar aquele olhar, sem saber onde pisar e a profundidade dos pés ao poço. Ela, como seu nome, se destacava entre os organismos vivos daquele lugar. Ester se aproxima e pede um Johnnie Walker Blue*2, que parecia com tom da luz que brilhava nela. Ester estava fazendo uma viagem à negócios, era muito famosa por vender seu conhecimento sobre reiki*3 e afins. A pseudo ciência estava em alta em “meados do século XXI”. Toda essa onda coaching em que se cria a psicologia e a filosofia moderna. É uma tristeza, pensava Alma, acostumada a ler de Freud à Sartre*4.
Mas Ester fazia brilhar a curiosidade de Alma, aquele olhar… não era de um monge budista. Não fazia querer chegar ao nirvana, mas sim descer aos 9 círculos do inferno*5. Alma com sua delicadeza ofensiva pergunta então sobre seu autor favorito, esperando ouvir Lewis*6. Mas, surpresa escuta-se dizer o nome do autor mais triste de toda Alemanha, Schopenhauer*7. E seu lema solitário de liberdade: “Um homem pode ser ele mesmo somente enquanto ele está sozinho, e se ele não gosta de solidão, ele não vai amar a liberdade, pois é somente quando ele está sozinho, que ele é realmente livre.” Tinha algo errado, não em Schopenhauer, mas naquele olhar. O mistério nada tinha haver com solitude, mas sim, com vazio da alma, cheirava a carnificina.
1* Playlist criada pela autora no Spotify.
2* Whisky, JOHNNIE WALKER BLUE LABEL® é um blend requintado feito com alguns dos whiskies mais raros da Escócia.
3* O Reiki é uma técnica criada no Japão que consiste na imposição de mãos para transferência de energia, pois acredita-se que desta forma é possível alinhar centros de energia do corpo, conhecidos como chakras, promovendo o equilíbrio energético, necessário para manter o bem-estar físico e mental.
4* Sigmund Freud foi um médico neurologista e psiquiatra criador da psicanálise. / Jean-Paul Sartre foi um filósofo, escritor e crítico francês, conhecido como representante do existencialismo.
5* Os 9 círculos do inferno de Dante.
6* Clive Staples Lewis, foi um professor universitário, escritor, romancista, poeta, crítico literário, ensaísta e teólogo irlandês.
7* Arthur Schopenhauer, foi um filósofo alemão do século XIX, fez parte de um grupo de filósofos considerados pessimistas.
26 de Dezembro chega junto com a chuva de vapor quente, Alma acorda com roupão de seda e meias. Passou uma semana desde o primeiro episódio intrigante entre Cristo e a serpente; Budha e Mara; Zeus e Cronos*8. Se existe uma dupla compreensível é a do dinheiro e hipocrisia, elas andam juntas de Planalto Central à Casa Branca. Mas a luz Azul não havia mais de lumiar aquela pobre busca pelo Jardim das Delícias Terrenas*9. A monotonia toma então o seu lugar. O sol aparece indicando á noite de lua nova, o novo ciclo lunar, aparece dando asas a imaginação de Alma, mas o bar está vazio. Um surto começa no mundo. Um vírus mortal fecha as barreiras internacionais. Com quadro reduzido de funcionários, Alma arrisca sua vida por sobrevivencia, comida e ração. Astarte era sua principal razão pela vida. E os dias correm feito os trilhos de um trem sem estação.
A escuridão cessa às 6:45 AM, programa então o banho de poema sinfônico negro: Camille Saint-Saëns – Danse macabre. Seu subconsciente mergulha na mais profunda maré do desencanto. Sonhos freudianos e sangue, muito sangue escorre então entre suas pernas durante o êxtase da Op. N°40. As ruas estão vazias, por muito tempo Alma não respirava profundamente, com vontade de estar ali. Surge uma profunda empatia por aquela atmosfera caótica. A beleza da incerteza brilha em seus olhos, sua alma pressente, os primórdios do mundo, ou durante guerras… peste e fome, massacre. O homem e o poder, paradoxos. “Será finalmente o fim do mundo?” Déjà vu*10. Depois, o vazio do hotel faz com que alma perceba a potência do subconsciente, pensamentos divagando sob um lindo balcão nú. Alma sente estar próxima do fim.
No caminho de volta pra casa, Alma avista flashes da imagem de Ester, cansada e confusa, pisca os olhos repetidas vezes, rapidamente… vácuo. Ela não estava mais lá. Que loucura, pensou Alma, “Ester é mesmo uma mulher interessante. E eu preciso de uma boa noite de sono, ou vou começar a ver fantasmas”.
Despertador, mais um dia.
O dia começou quente, mas sua pele continua fria. Mais um dia monótono? Às 18h Ester aparece no bar.
_ O que ela está fazendo ali? Ela não morava no exterior? Estamos em pleno caos da saúde pública. Preciso de uma dose de vodka.Pensou Alma confusa. Sente o seu estômago embrulhar, ao lembrar da Imagem que avistou na estação de ônibus na volta pra casa.
_Bonjour, querida!
Diz Ester.
_Como andas? Prepare o de sempre: ambrosia*11, aquela que te abre as portas do Olimpo, poder e da felicidade.
Ouve-se quela voz trêmula de angústia e ansiedade.
Alma prepara uma dose do drink azul, talvez um absinto de Artemis*12 que conecte o que se perdeu à milênios antes de toda essa cretinice moderna. Que seu nome faça juz o que se pretende os deuses, se há um superior na Terra.
8* A provação de Jesus; Mara é o demônio budista da ilusão; e Cronos é o Titã que comeria o filho Zeus se não fosse derrotado pelo próprio. Em outras palavras, o bem e o mal na dualidade.
9* O Jardim das Delícias Terrenas é um tríptico de Hieronymus Bosch, que descreve a história do Mundo a partir da criação, apresentando o paraíso terrestre e o Inferno nas asas laterais. Ao centro aparece um Bosch que celebra os prazeres da carne, com participantes desinibidos, sem sentimento de culpa. A obra expõe ainda símbolos e atividades sexuais com vividez.
10* Déjà vu é o termo francês que significa literalmente “já visto”. Este termo é usado para designar a sensação que a pessoa tem de já ter vivido no passado um exato momento pelo qual está passando no presente, ou de sentir que um local estranho é familiar.
11* A palavra ‘ambrosia’ significa divino e imortal. Considerado o manjar dos deuses do Olimpo segundo a mitologia grega, era um doce com sabor divino. Seu poder era tanto que se um mortal o degustasse, ganharia a imortalidade.
12* Absinto de Artemis, ou artemísia, é uma planta de origem grega em homenagem a Deusa Artemis, deusa dos arcos e da caça. A planta é usada desde os primórdios pelo seus efeitos medicinais de cura, mas também tem teor alucinógeno.
Ignorando a estranheza da presença daquela mulher ali, Alma faz perguntas curiosas que estavam guardadas há muito tempo, antes de todo esse caos pandêmico. Divagando entre a sua beleza e o tom da sua voz, escuta-se sobre sua crença espirituosa, onde o monoteísmo e politeísmo não significam nada. É como um banquete do “bem”, reunindo todos os deuses e suas atrocidades, um convento nos céus de horror, enquanto, na devoção da Terra, humanos engasgam com a cruz entalada na garganta. Alma mesmo não acreditando naquela celeuma dos deuses, se interessa pela hipocrisia de Ester.
“Se os Deuses unissem sua maldade, não sobraria tempo para humanos brincarem de Deus. Talvez o mundo seria melhor assim.” Pensa Alma.
E tudo é dito por cortornos, com medo de assustar Ester com seu ceticismo e desprezo por tudo e todos. Alma consegue então perguntar:
_Onde entra Schopenhauer nessa história?
Responde Ester:
_Eu gostaria de um céu triste, cinza e melancólico. Assim eu poderia depositar sem medo todo meu sofrimento.
Alma ri. E diz sem pensar:
_Quanto é sua consulta de Reiki?!
Ester envergonhada, diz:
_Meu trabalho exige de mim, mas também preciso de cura.
_Nós só precisamos ser livres, não tem cura para o que não é doença. Não faz mal querer um céu escuro, ou acreditar que somos algo mais do que só matéria. O mundo está acabando, essas questões podem assolar até a minha cabeça cética. Será que vamos todos morrer? Eu não gostaria de um céu, eu gostaria do nada. Minha alma dói no corpo. Ou será que mesmo sem ele, ela seria capaz de sentir dor? Seria interessante saber de toda a verdade antes de morrer, mas não creio ser possível. Diz Alma.
_Então você acredita em alma? Pergunta Ester.
_Temos que acreditar em nós mesmos. Alma solta uma gargalhada.
E a noite continua em um clima delicioso de incertezas sobre a vida, risadas e o calor da a/Alma.
No caminho de volta pra casa, Ester à acompanha, não só no pensamento, mas nas janelas do ônibus. Ela estava sempre presente, momentos em que só havia ela e nada mais.
No dia seguinte, novamente, Alma se depara com aquele negro balcão, e lá estava ela, em um vestido vermelho de seda, que se esforçava para alegrar o seu rosto pálido. Apenas jogado ao corpo e segurado pelas alças. Alma repara aqueles braços femininos e nada delicados, marcados pelo prazer da fúria, que debatia o que o corpo segurava.
Ester não parecia muito bem, com seu corpo manchado e seus olhos fundos. Machucados frescos davam sinal, de que o dia não fora tão fácil, como parecia as risadas da noite passada.
_Ester, você não me parece bem. Precisa de algo?
_Qualquer coisa para anestesiar a carne. Tive um surto ainda na madrugada. Eu me sinto perdida. Parece que estou morrendo e outro ser está tomando meu lugar. Não entendo onde foi parar meu equilíbrio. Não sei onde Deus foi parar, no momento em que mais preciso.
_Seus braços… Ester…
_Eu não sei como eu fiz isso, mas como eu disse, outro ser, estão querendo me matar.
_Calma, ontem abusamos do álcool e você de entorpecentes. Essas coisas tem efeito estranho, quando chegam ao fim. Você só precisa comer algo e se hidratar. Desse jeito sua “alma” volta pro lugar, e tranca os demônios no quarto.
Diz Alma, tentando tirar um sorriso de Ester.
Enquanto Ester aprecia um macarrão ao molho sugo, com um Olaria e outra taça de água – que Alma insisti na hidratação – toca na playlist do bar uma música em comum para essas mulheres: My Way – Frank Sinatra.
Diz Ester:
_Cristo! Como essa música me lembra a minha mãe.
Alma: _ É uma das minhas favoritas dele.
“And now, the end is near
And so I face the final curtain”*13
Coube como uma luva pro momento. (risos)
_Minha mãe dizia não se importar com a morte, e o motivo só essa música seria capaz de explicar.
Diz Ester…
_Ah, como eu odiava aquela velha. Imagino se na sua morte ela conseguiu ao menos escutar a bela voz do Frank Sinatra, ou se deparou com tormento, do ser humano horrível que ela foi. Minha mãe me desprezou a vida toda, e não viveu nem pra explorar do meu dinheiro. Nunca consegui perdoa-la por isso. Tudo que eu conquistei foi por ela, foi para mostrar que eu seria capaz de viver como ela achava que vivia. Pobre Leonora, vivia em sua bolha da liberdade e não tinha um puto pra conhecer o mundo lá fora. Eu sempre estive do lado de fora da bolha, viajei o mundo e ainda temo à morte, e o Frank Sinatra.
_Nunca achei Frank Sinatra tão filosófico! Diz a ironia de Alma.
_Foda-se você! – Emputecida, Ester faz alvoroço – Foda-se todos e o Frank Sinatra!
Depois de um colapso nervoso, Ester volta do banheiro, retocando aquele rosto marcado com a loucura. Alma, vidrada em conhecer a profundidade do poço, não tira os olhos dos olhos borrados.
_O que você faz aqui na verdade? Se não parece bem para trabalho?
Questiona Alma, acerca dos questionamentos solo, antes do brilho azul.
_Estou dando um tempo.
Diz obgetivadamente Ester.
_Já entendi que pretende ficar sozinha. Não procura familiares, porque não deve suportar a existência de outro ser humano, que não fosse, sua falecida e odiada mãe. Enquanto o trabalho? Como consegue conciliar toda a sua dor em “vibrações positivas”?
_Não consigo, esse é o problema!
Diz Ester, cabisbaixa. Continua em uma indagação:
_Como resolver esses problemas da alma? Essas dúvidas sobre você mesmo? Nunca tem fim…
_Nunca terá! É do ser humano questionar além do que se pode explicar. Afirma docilmente Alma.
_Estou em uma crise de identidade aos 29 anos. Me sinto uma idiota por isso. Meus remédios não amenizam mais.
_Crise existencial a gente toma é com café da manhã. Relaxa, tudo e todos podem mudar, és livre para isso. Alma, seduz a louca com as palavras.
_A última vez que acessei minhas redes sociais, foi em uma Live, em que quebrei tudo, depois de um surto. Eu só queria que as pessoas entendessem que eu também sou gente, e nem tudo que eu escrevo ou falo, é o que eu realmente sou, talvez seja, o que eu queira ser. Talvez seja… o que eu quero que as pessoas sejam. Quero que as nuvens negras façam parte do céu. As pessoas nunca entendem… Declara Ester.
Alma percebe tamanha incompreensão naqueles olhos, mas pretende navegar até o fim daquele mar de lamentos.
Continua Ester:
_Estou aqui faz mais de uma semana. Muito antes de tudo. As fronteiras estão fechadas. Estava acompanhando as notícias, sabia que logo chegaria aqui. Me preparei pra ficar. O hotel está lucrando com isso, afinal, não se tem uma alma viva nesse lugar além de vc.
Ester solta uma risada seca, e continua. _Quando eu te vi aqui, logo percebi que seria uma ótima companhia pras incertezas da vida. Disse metaforicamente. _Toda essa loucura, o que será do planeta depois disso? Esse hotel tem algo de sinistro. Tudo me faz sonhar acordada. Sinto que pertenço á esse lugar.
13* “E agora, o fim está próximo
E então eu encaro o último ato.”
Alma, com sua inocência falta de fé, dúvida da capacidade inconsciente de Ester, e mergulha na sutil curiosidade pelo abismo. Se os demônios de Cristo existem, alma estaria no Limbo*14, talvez no lugar de Virgílio*15. No bar, Who Knows What Tomorrow May Bring – Traffic. Pra despir o balcão e a noite. O último pano é passado enquanto os psicodélicos sessentistas estão na viagem: “If for just one moment you could step outside your mind, and float across the ceiling, i don’t think the folks would mind.”*16
E no ritmo sonoro da imaginação de Alma, ela se permite escalar a madrugada naquele estranho corpo.
Quando chegam ao quarto 217 *17, Alma devora sua primeira curiosidade, e solta os dois cordões. Cai levemente o vestido de Ester, expõe aquele corpo magro e nú. A beleza da jaula, que esconde o monstro causador daquelas marcas. Alma desbravou cada detalhe, cega á sede da curiosidade. Entre doces beijos o afeto que Ester sempre teve a necessidade. O fogo subia entre aquelas pernas ao som de Stairway To Heaven – Led Zeppelin. As duas mulheres desciam ao inferno se sentindo nos céus. O gozo da A/alma era realmente como o absinto de Artemis, cura para os olhos humanos. Selvagem e suave. As duas entrelaçadas mais parecia uma pintura de Goya*18, distribuição perfeita de luz e sombras.
Depois de subir aos céus por escada, Ester ascende um cigarro.
_Essa letra é uma viagem né? Enquanto várias pessoas estão preocupadas com o seu lugar no céu, outras pobres almas só imaginam voltar pro seu estado natural.
Desvaira o pensamento filosofico de Alma.
_Penso que se a alma existir, talvez ela seja como um ser vivo, só que em espectro. Se desenvolve e se multiplica. Na idéia hermética de que o todo é o um, e o um é o todo. No fim nunca vamos saber o porquê da nossa mísera existência.
Ester perturbada com a idéia de que merece o seu lugar ao céu, se sente ofendida com as palavras de Alma. Sua pele estava tão morta, quanto a de Alma. Fria. Branca. Histérica. Ester suava frio, ouvia seus rápidos batimentos no ouvido. Seus olhos incomodados tremiam. Sua voz quer escapar em desespero, mas a jaula à contém. Os pensamentos equivocados começam a pairar pela cabeça caótica. Ao mesmo tempo que Ester admira Alma, ela desperta a idéia de que, Alma como, a sua mãe, apenas à provoca. Levada pelo pensamento hostil, Ester começa a articular perseguições feitas para pobre Alma. Pobre Alma, pensa tanto que já não precisa do corpo. Sua cabeça flutua como um planeta, muito longe daqui.
Alma na cabeça pesada de Ester, é uma metida que diz tudo com precisão. Mas a pobre Alma só enxerga precisão naquilo que ela considera, suas próprias verdades. Alma é de uma curiosidade animalesca, uma felina que ruge palavras afiadas. Ester se amedronta diante da tigresa, e liberta a caçadora de desprezo.
14* Limbo é o primeiro círculo do inferno de Dante, onde não se vê a face de Deus. Um lugar esquecido e cheio de incertezas.
15* Virgílio foi um poeta romano clássico, autor de Eneida. Inspiração para Dante, apareceu na sua obra, Divina Comédia, era o guia de Dante no inferno, e pertencia ao Limbo por ser considerado Herege.
16* “Se por apenas um momento você pode pisar fora de sua mente, e flutuar através do teto, eu não acho que as pessoas se importariam.”
17* O quarto 217 é uma referência do Hotel Stanley, conhecido desde a década de 70 por apresentar atividades paranormais. Localizado nas Montanhas Rochosas, na cidade de Estes Park no estado do Colorado. O hotel assombrado esteve na inspiração de Stephen King, na obra, O Iluminado.
18* Francisco de Goya, foi o pintor espanhol mais importante do final do século XVIII e começo do século XIX. Inspirado pelo Romantismo e pelo Rococó.
O vento viera participar daquele momento inglório, trazendo com a cortina a atmosfera baixa que pertencia aquele lugar. O reflexo do sol na lua cheia ilumina, em uma deprimente escrivaninha, a tinta que faltava pra pintar a imitação de Goya. E a tonalidade de azul sangra na viril garganta de Alma. Silencioso, fica o filme de horror pelos olhos de Alma. Suas mãos desesperadas tentam alcançar Ester, mas o desespero vai se sufocando, enquanto o sangue jorra pelo pequeno objeto de tinta azul. Os tons de efeito sombra causado pela noite, esconde o cheiro da carne ferida. Finalmente Ester consegue flutuar sua pesada cabeça, seu corpo quente de adrenalina grita sobe a queima de Alexandria, queima cada certeza, e cada verdade de Alma, com buracos inalcançáveis. Alma está morta, mas para Ester ela já havia morrido. Seu colo já não era colo de mãe, mas sim um pescoço mutilado de perfurações. Depois do alvoroço Ester sente pela primeira vez,como se existisse alma.
O céu alaranjado acalma as cortinas, depois que o demônio iluminou o cenário, surge o Deus Brahma*19 para acalmar a pitoresca menina. Que estava azul como Mahakali*20, pintada com o sangue da anulação.
Alma começa a aparecer nos tons mais quentes e alaranjados. No estilo Rococó francês. A mistura erótica do amanhecer ensanguentado, caía como colírio nos olhos agoniados de Ester. Ela levanta o corpo vestido de sangue sobe as cicatrizes, senta seu corpo despido de marcas na deprimente escrivaninha, e enlouquece o espaço silencioso, onde guarda o caos dos pensamentos. Ester busca calma para encontrar refúgio depois do assassinato.
Junto com os copos vazios, estava a bolsa de Alma. Ester joga sobre o chão seus pertences, e encontra a chave da solução.
A garota do nome estelar, toma um banho gelado para acalmar o corpo quente. Pele azul, nua, estrela sem brilho, e o vermelho de Alma desce frio ao ralo. Já que a quantidade de vermelho, não permite a violeta no romantismo exacerbado.
“Bela Alma, o que vou fazer com toda essa magnitude morta?” Pensava Ester, enquanto os olhos vermelhos ardiam.
O abismo em que caiu Ester, não se via possibilidades de voltar à vida ao normal. Mesmo diante da face do nada, Ester se vestiu e foi à pé, até o supermercado mais próximo. No caminho ajudou uma senhora a recolher as laranjas que caíram no meio da calçada, recompensada pelo bom dia maternal da mulher velha. Na sua cesta havia laranjas, água sanitária, um cutelo, um estilete, uma tesoura, álcool e glicerina.
_Que dia quente, vim com sede de laranjas para me refrescar. Álcool e glicerina vai matar esse virus dos diabos.
Soltou risadas com a moça do caixa. Simpática Ester.
19* Brahma é um Deus da religião hindu, considerado o criador do universo. Brahma é representado com quatro cabeças e quatro braços e aparece sentado em um cisne. Na religião hindu, Brahma é o primeiro Deus da Trimúrti, uma trindade do hinduísmo. Brahma, Vishnu e Shiva, que simbolizam respectivamente a criação, a conservação e a destruição.
20* Mahakali, deusa hindu, mãe do tempo, da morte e do juízo final.
Seu semblante mudou logo após fechar a porta do 217. E a primeira vista, era de Alma estendida à cama, coberta de sangue seco. Ester bruscamente joga aquele corpo pesado ao chão. Passa a mão leve sobre o rosto da mulher morta, e com a tesoura corta seus longos cabelos castanhos. Com o cutelo, separa os membros sem alma. Depois de decepar o corpo, Ester cuidadosamente explora o seu estilete. E, como se tira a casca da batata, ela separa a pele do músculo.
No fim da tarde Ester consegue organizar tudo que precisava, estava na hora de limpar a bagunça. Junta toda a roupa de cama ensanguentada com suas roupas, que trouxera na mala, e enfia tudo em um saco preto. A coleta de lixo passava naquela terça-feira ás 19h. Os cabelos embaraçados foram enfiados no saco de papel onde trouxera as laranjas. A pele retirada em tiras, foram lavadas até ficarem ao coro, depois guardadas em sua frasqueira. O resto de carne foram enfiados na mala. Ester limpou todo o quarto com água sanitária, e quando terminou às 18:45, desceu com os sacos pretos pelas escadas. Chegando ao local, encontra o funcionário do hotel, certificado pela limpeza.
_Cheguei à tempo!
Sorri Ester, calmamente para o senhor, deixa o saco preto na caçamba, vira às costas e pega o elevador. Sai do hotel pelos fundos e ascende um cigarro, enquanto vê o caminhão de lixo triturar os panos manchados do crime.
Caminha em volta do hotel e entra pela porta da frente, na recepção já acerta todo o seu tempo hospedada com cartão Black. Sobe até o 217 e recolhe a mala que estava os pedaços de Alma, a frasqueira de coro humano, a bolsa de Alma e o saco das laranjas. Pega seu carro alugado, e dirige até a Mata da Cerra. Chegando na estrada de chão, depois de 10km, Ester para o carro e desce a mala, procurando a melhor forma de se livrar dela, joga de cima da cerra, onde não se enxergava o que havia, mato ou água. Volta assustada para o carro que deixou aberto e com farol ligado. Ali não havia consciência, apenas a respiração pesada e ofegante da estrela esquizofrênica. De volta ao carro, Ester derruba os pertences de Alma da bolsa, pega a chave e o boleto de água, onde guiaria o próximo endereço.
A rua era escura e pobre, a chave abre o mísero portão, Ester entra na pequena casa de Alma. O frio que lá fazia chega até Ester.
_Que frio estranho, até combina com Alma. Ironiza Ester. Escuta um barulho, seu corpo paralisado de medo, logo reage a gata negra que saira em direção ao portão. _Maldição!
Na casa havia pouca mobilha, tudo parecia pertencer à outro tempo. Em cima de uma cômoda de madeira velha, havia livros. Ester abre Sartre, O Ser e o Nada. Marcando o trecho da leitura com uma foto da gata que ali pertencia. Entre o papel e a imagem se encontra o trecho:
“Nunca se é homem enquanto não se encontra alguma coisa pela qual se estaria disposto a morrer.”
Atrás da foto escreveu a defunta: “Estou disposta a morrer por você Astarte, minha deusa, fique com essa pobre A/alma!!!
Astarte passara dois dias sem ver a sua Alma, estava arisca com a visita daquela mulher estranha. Deixou a casa e ficara na vigília sobe as redondezas daquele pequeno teto. Enquanto isso, Ester se tranca por dentro e fecha todas as janelas, desce até o porão e dorme como se escapasse da tormenta.
O sol queima aquele telhado pobre e úmido, é meio dia! Acorda Ester, como se estivesse se encontrado, pela primeira vez em seu cansado corpo. Lembra-se de todo tormento do último dia, Ester aprecia a solitude com muito desânimo, sai do porão e anda pela humilde casa. Passando os dedos levemente sobe a poeira, Ester encontra uma gaveta pequena por baixo de um armário velho. Ali havia agulhas enferrujadas e linhas soltas. Como se sentia o seu autor alemão favorito, Ester está livre, ela conhece o teor da sua liberdade e então surge a idéia de reviver a magnetude mórbida de Alma, e dar mais essência aquela pobre casa, com a esperança de se sentir menos só, ou menos livre/louca.
Começa a vasculhar a frasqueira e a separar as peles mortas. Costura uma por uma, até formar um amontoado de tecido podre. Logo após enche sua almofada com os cabelos sem vida de Alma.
_Bem vinda de volta!
Diz Ester.
Ester vai até o guarda-roupas e começa a vestir as roupas de Alma, se sente melhor e mais bonita, depois de um banho frio. Seus olhos fundos e unhas encardidas de sangue, não escondiam dela a beleza da inveja que seguia. Ester admirava Alma, Ester queria Alma, ao mesmo tempo, ser Alma. Mas não podia sair daquela velha casa. Então começou a fingir ser Alma ali. E ensaiava momentos em que se via a peculiar garota, abria seus livros, bebia seus vinhos, costurava suas peles. Depois de algumas taças percebe um vulto no espelho, assustada corre até a cozinha. Se sentindo só e ao mesmo tempo em companhia, Ester coloca ração com esperanças de Astarte vir até ela. Percebe as janelas fechadas e abre uma fresta. Depois de alguns minutos a gata aparece, come da ração e lhe faz companhia.
Relembrando os traços de Alma, sua pele fria, cabelos longos e castanhos, tenta dar vida ao cabelo embolado no saco de laranjas. Colocando sobre o seu rosto na frente do espelho, vê novamente o vulto e se assusta quando cai um livro da estante. Era Astarte. Ela derruba um livro curioso sobre a antiga religião. Na página aberta sobre o chão se encontrava a demonologia do Grão-duque do inferno, Astaroth. Associado a trindade infernal de Belzebu e Lúcifer. Ali ela encontra os papéis de estudos de Alma, caídos juntos ao chão. Percebe então os cantos à Deusa Astarte e as referências demoníacas com a filha de Baal. Encontra seus 42 hinos e adoração pela personificação de Inana, a deusa do amor. Junto aos parágrafos encontra esboços da própria imagem, desenhada à traços de grafite. Assustada continua a folear. Astarte a belicosa Deusa do amor infiltrou na imaginação de Ester, onde se passava pela cabeça caótica da jovem, a gata ser a representação de um pedaço da alma da deusa, já que a Alma com A maiúsculo estava cortada em pedaços e jogada às profundezas da cidade.
A curiosidade é o principal elo que uniu esses dois corpos. Ester apavorada derruba os livros da estante na procura de mais informações sobre o teor demoníaco em sua volta. Ela encontra então, A Chave Menor da Clavícula de Salomão*21. Nas marcações:
“O vigésimo nono espírito é Astaroth. Ele é um duque poderosíssimo, e aparece na forma de um anjo medonho, montado sobre a besta-dragão do inferno, com uma víbora na mão direita. É sábio não se aproximar muito dele a fim de evitar o fedor deletério que ele exala. O magista deve apontar-lhe com o anel ao que estará protegido. Conhece todos os segredos da Criação e responde questões sobre o passado, presente e futuro. Declarará prontamente a queda dos espíritos, se desejado, e a razão dela. Pode fazer os homens sábios em todas as ciências liberais. Reina sobre 40 legiões de espíritos.”
21* Rei Salomão é uma figura famosa e controversa, ligado aos mistérios divinos e outros nem tanto assim. Salomão foi um rei de Israel filho do heróico David com Bate-Seba, “ungido” e escolhido para ser o sucessor de Davi desde o seu nascimento, governando por cerca de 40 anos por volta de 970 a.C. Famoso por provérbios bíblicos, é também o criador da goétia, sistema mágico e ritualístico utilizado para invocação de 72 espíritos conhecidos no meio ocultista como goécios. O capítulo mais famoso do grimório é A Chave Menor de Salomão.
Vasculhando a quinquilharia de anotações encontra novamente a ligação dos nomes com a gata, desacreditando da coincidência Ester trêmula lê com os olhos aguçados de ânsia:
“Ela era conhecida como Astarte aos cananeus, aos sumerianos, ela era conhecida como Inanna, aos babilônios, ela era conhecida como Ishtar para os assírios e os Akkadians, ASHTART, ASHTORETH, ASHERAH, e ASTORETH, para os egípcios, ISIS, ASHET e aset, ao Phoenecians, ela era conhecida como Tanit-ASHTART e ASHTAROTH. Seu nome ugarítico era ANAT.
Zodiaco: 10-20 graus de Capricórnio
31. Dezembro-janeiro 9.
Tarot: 3 de Pentacles (Azazel me disse que o Ás de Copas)
Planeta: Venus
Cor das Velas: Marrom ou Verde
Animal: Cobra ou Viper
Metal: Cobre
Elemento da Terra
Rank: Grã-Duquesa das Regiões Oeste do inferno; coroada Princesa.”
No verso, encontrou mais um rabisco em forma de pentagrama, muito parecido com o quê havia no livro da Clavícula de Salomão, foi então, que não lhe restava mais coincidências, e Ester teve a certeza de se tratar da mesma criatura demoníaca. Continua sua pesquisa…
Assim como a Deusa Suméria “Inanna” que era conhecida como uma poderosa guerreira, seu animal sagrado era o leão. “Personificação da gata!” Pensa alto Ester amedrontada. Depois de revisar as anotações de Alma, Ester olha no calendário, perdida no tempo e no espaço.
Dia 31 de dezembro, a Terra é regida pela constelação de Capricórnio. Assustada com várias “coincidências”, Ester procura por mais respostas, e vasculha todas as gavetas do mesmo armário velho comido pelas traças. Encontra figuras diferentes das que viu anteriormente. Na imagem um monstro marinho, que parecia um dragão. No verso da imagem uma oração:
“Azael – Como a vela queima no derredor e o sol que desaparece dentro da escuridão, Eu te chamo Azael – Espírito dos Portões do Oeste, do crepúsculo e da sepultura, eu te invoco adiante. Mostre até mim sua máscara dos mortos e envolva-me no espírito do teu ser, Eu desejo caminhar entre a luz e a escuridão. Eu venho à ti como Besta do Oceano, a insurreição do Dragão!Abram adiante o caminho das serpentes! Abra-se o caminho do Dragão!
Abram adiante o caminho das serpentes! Abra-se o caminho do Dragão!
Hekas! Hekas! Hekas!”
Ester abre o navegador do celular e busca pela palavra Azael, e encontra resultados de várias pesquisas. Visto como serafim por algumas e anjo caído por outras. Filtra então a pesquisa na base bíblica, que diz assim, conforme Jó 41:18-21
“18 Cada um dos seus espirros faz resplandecer a luz, e os seus olhos são como as pálpebras da alva.
19 Da sua boca saem tochas; faíscas de fogo saltam dela.
20 Das suas narinas procede fumaça, como de uma panela fervente, ou de uma grande caldeira.
21 O seu hálito faz incender os carvões; e da sua boca sai fogo escarlate”
Dragão! Pensa Ester, como a imagem do monstro marinho, como a besta que monta por cima de um dragão, Astaroth!
Voltando a vasculhar a papelada de imagens soltas pela gaveta escancarada, encontra um caderno negro de folhas sem pauta. Ao abrir, Ester o deixa cair ao chão, quando depara novamente com esboços grafitados do seu rosto pálido. Ajoelha-se perante o desconhecido idêntico as suas fisionomias, e folheia mais. Até encontrar novamente o dragão com nome Leviatã, em seguida a data 9 de janeiro. Apavorada tentando associar toda informação, chega em uma conclusão de que se trata do mesmo dragão. “O subordinado do diabo!”
Escuta-se um barulho de palmas, uma mulher loira à porta chama por Alma. Era a recepcionista do Grande Hotel. Ester sai sem saber o que fazer e se depara com a moça, que diz:
_Olá, a Alma está em casa? Já tem dois dias que Alma falta o trabalho, não atende o celular. Ouvi boatos de que seria mandada embora, então eu pedi permissão pra confiscar seu endereço e aqui estou.
Ester tenta manter a calma e responde a moça de rosto alongado:
_Ela foi visitar seus pais, parece que a mãe contraiu o vírus e o senhor de idade não consegue lidar com a situação, também infectado. Me pediu para vir alimentar sua gata.
_Estranho ela não dizer nada, estão todos muito preocupados.
_É a cara da Alma não dizer sobre a vida pessoal dela, afinal, como ela mesmo diz, “pra empresa eu não passo de um número”. Alma e sua personalidade belicosa hahaha.
Com muito esforço pareceu convencer a moça arrumada, voltar para sua vida normal.
Ester volta para dentro e tenta procurar a gata, e não a encontra em lugar algum. Os vultos agora podem ser identificados pela respiração ofegante, Ester encontra uma solução, e tenta sair da tormenta. Começa a jogar gasolina do carro alugado sobre a casa. Meio tonta pelo cheiro do álcool, enxerga luzes vermelhas e o som da sirene. A jovem recepcionista volta com polícias até à casa de Alma. Adentrando sem permissão, apreende Ester no ato.
O fim do ano macabro termina na pobre rua da Alma, com faixas cobrindo o teto velho, e investigações sobre o paradeiro da insignificante bartender de um hotel de luxo. Ester começa a compreender o vulto, e enxerga o demônio de asas. Tentando explicar suas alucinações, é levada por camisa de força para um hospital psiquiatra, onde começa a contar os dias para o fim da constelação de Capricórnio. Rezando a Deus e vendo demônios, Ester é acusada de assassinato, mas no dia 9 de janeiro será absolvida para seu título de dragão do grão-duque do inferno, e condenada a viver no céu acinzentado que tanto buscava. Enquanto a Alma, nunca se sabe, se ela obteve a resposta, do que realmente havia dentro daquela peculiar garota curiosa.
Mas de uma coisa Alma sabia, Ester jamais saberia lidar com a solidão, quem dirá Schopenhauer. No manicômio fisicamente sozinha, ela já teria decidido o seu final, como o dragão da inveja que Deus fez pagar pelos seus pecados. Ester brilhava, mas pelo fogo que cuspia.
“Toda verdade é meia verdade”
O Caibalion
